segunda-feira, 28 de julho de 2008

Perpétua Saciação

Recaem suas lembranças todas no espaço em que te encontro e em que explode cada gota desse céu neutro de teus rastros, cheio de tuas marcas.
Nos berços de
tua vida que flui nova a cada canto de tua aparição, és fonte de mais e mais vitalícia, e eu sedenta tento te clamar para suprir tua vez em minha boca. E de que me adiantam os suplícios se jorras de mim com o curso de uma lágrima, com o salivar de minha fome?...

Ah eu sei que tua essência se torna a desgraça de quem ousa tocar-te infame; invades sem piedade os lares dos dependentes que criastes - imponente e temperamental, sacias com o medo quem te necessita como o primordial elixir da vida.

Tua cor é a haste dos reflexos de quem te manuseia, no mesmo tão pura que incolor cristaliza o mistério de todas as vidas. Teu gosto é o neutro da espera com o odor do imprevisível que não se exala, mas guia com a mais corriqueira e impenetrável sentença do insubstituível.

E tuas ondas são a mesma linha que transparece como fino espelho, no mais fundo dos lagos, com mais inspiradora e sedutora curiosidade que chama o vício, tornando-se a poça, a vertente da paisagem, o toque que condena a eternidade e os seus seguidores, de teus amantes - que, na voluptuosidade de tua exuberância te derramam dos cálices, mas que hão ainda de lutar e morrer por tua permanência. Sem conjugar com prepotência a influência sem fim que de todos carregastes tão terrena - como a necessidade toda - princípio e fim.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A mordida

Ah, mas de todas as bocas que beijei nenhuma equipara saciação como alguma...

Das bocas tantas que beijei eu permeei por cálices longos e extravasados de desejo, repletos de intenção que não cabiam nos lábios e os gestos afloravam-se, para minha comodidade ou repelimento. Ah, foram tantos que minha memória já não se cumpre com tamanha eficiência.
A tranquilidade de outros foram marasmos de fluxos despretenciosos, ou sem linhas de vontade, sem a ânsia pelos sinais da continuidade; eu recai amena, ou abri os olhos para fazer sinestesia e cumprir o gosto. Outros penetrantes tão de leve incluiam a libido percorrendo alta e selvagem, na densidade que cuida sedutora, ou escandalizada libertinagem ao mandamento de instantânea saciação. A dominância dos que me envolviam poderiam-me carregar a encontrá-los no céu de seus paladares, achando do agridoce o vazio; cumprindo o imperfeito para minha amostra tão imprecisa, tão mutável.
As impressões dos lábios me marcavam com linhas de cor, de cansaço, de vontade, desapego e junção. Eu mutei-me pausadamente no emaranhamento de cada pele, sentindo a textura para consolidar minha posição; distante, leve, solta, entregue. Adjetivações das quais só a língua pode sintetizar plena em minha boca.
Senti falta de compreensões das rudezas que me apresentaram sem colher os frutos das combinações; a ligeireza fez repulsa ou frenético ritmo da convulsão dos corpos por mais e mais.

Fechei-me como túmulo e pude delas também sentir o ar de quem espera, e o suspiro de quem me vela, o vento das palavras de quem me carrega fez a secura, o amargo perdurar na mesma insistência da doçura, do apaixonante. Dentre as salivas que provei, lambuzei-me nas possibilidades das decorrências com as excitações do momento percorrendo-me na mais despudorada dos concebimentos.
Deixei-me avulsa e aberta para as descobertas dos intencionados; descobrindo-me nos céus através de um pedaço de matéria, no sorriso e no escarro que me engoliram e me deram líquido para o Graal da poesia.

Não me interessam as palavras para chegar até; a atração como imã impulsiona o pêndulo das conquistas, e todos os cantos e ares propiciam quem se proprõe. Provei para desgustar e regujitar, para calar e ser calada. Sem saber quem sou, rumei por todos os personagens e fiz histórias, criando caminhos e precipícios.


Basta!


As razões não me dizem ao que me saceia, a boca que me falta é a minha própria; para na fluência toda eu silenciar e descobrir nas flores que me cercam, o aroma da perspectiva que grita meu passado e meu destino.

Sem a menor das crenças, com a falta na bagagem; falta-me a boca pra expressar a fome que sinto e que só este tempo incrédulo pode me guardar.

Guarnecer é preservar o que só o silêncio e a inquietude de minha pose pode provocar.
Mordisco agora o insensato dos meus pesares e prazeres; (a)nulo desconhecido.


..........Obrigada por ao abrir meus desejos, deixar a vontade me guiar.
.........................................................In-saciada, Antonina.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Coexistência

Deu o poder de suas mãos ao vento, que soprava-lhe baixinho aos ouvidos, desejos de insanidade - (que) consumiam-na cada vez mais. A brisa de uma madrugada fria revelava-lhe idêntica submissão das aparências a sua verdadeira natureza, os dias passando ao tempo, idêntico passamento. Os entorces de uma vida caminhavam lentos, distraindo-se nas fábulas do que não lhes era possível, sonhando no sentido de buscar e saber-voar -
decaíram-se no chão sedento de suas lágrimas, aonde brotando angústias, ela erguia-se para de igual a igual encará-los (tentanto constante), sobreviver.
Caminhando pelas horas súbitas de buscar uma nova distinção sua existência, deparou-se serena a questionar seu derradeiro permanecer, sentindo-se cada vez mais clara no confuso, matéria sublime pouco vista, talvez nada. E tomou sua pergunta por resposta, caminhando ao meio de sua entrega cheia de verdades, cheio de sua corrente intimidade.

Vestida com os trajes de plena celebração, colocando agulhas a equilibrarem seus pés, gerando de seus passos o compasso definitivo; seus rastros únicos, sua escuridão deixada para trás quando levaria o mundo todo num salto livre, no fim de todos os seus princípios.
Posta aos instantes finais de seu destino, espalhou por seu carro caixas de sapatos, seus passos extintos não lhe prenderiam mais em qualquer rastro, não felicitariam nem agoniariam.
Pôs seus pés a neutralidade do ar que buscava decisivo, recrutando-se ao novo caminho, olhando pra trás apenas num aviso com as últimas palavras do mundo que empurrou-lhe;
deixando e despedindo.
Cambaleou uma ou duas vezes, e num salto, num suspiro se entregou: as marítimas correntes enlaçaram-lhe. Suas poucas voltas à superfície demonstraram a resistência inata de estar vivo, mas a disposição de tudo, suas vontades e seus sentidos, deixaram-lhe.

Um corpo sem razão a vaguear, até encontrarem-na flutuando com o ar denso, com o corpo desgastado; mas com seu curso completo pela ânsia de um novo nascimento -
quando o nada apareceu-lhe como tudo.

sábado, 17 de maio de 2008

Liberdadéia

Vindo da rua, a poucos passos, sorrateira evazou-se atmosférica, respirando e inspirando nas peculiaridades de sua presença; o ar e a veste.
Ela escorreu pelas paredes, enquanto pintava quadros, sinfoniava sons, amaciava o solo e multifacetava-se. Por trás das cortinas, numa brecha fina eu podia observá-la, batendo de porta em porta, discretamente penetrada na lapidação das mesmas, e quando não percebida, saía ao rumo do vento, em busca de um lugar qualquer que pudesse justificá-la por si só.
E ela sempre caia nas bocas pelas praças, pelas telas, ecoada nos gritos protestantes; tão querida a tantos cantos que repelida a sua integridade, sempre parecera utopia. Uma personagem cheia de suas idas e vindas, nas fragrâncias da podridão, isolada, nas paixões tão libêrta, ela sempre vagou nômade e selvagem, seguindo seus instintos na privação e na necessidade.
Na realidade, sua coexistência sempre produziu contos urbanos, lendas que desde muito trescalaram dúvidas e produziu suspiros aos que se acomodaram nos mantos do sonhar.
Ela ensaia seus passos em princípios, repercutida nos espaços cheios ou vazios, desde que isenta de egoísmos, possa beneficiar em sua indigência os nomes que cuida; maternal à todas as escolhas.
Alimenta-se dos ares mais sublimes, como força ideal para equilibrar os seres, ela instiga e conduz as criaturas que repousam em suas lacunas, sendo a matéria da vida e da morte. E finalmente, penetrando nos poros do tempo ela embarca nas asas da palavra que não descreve a limpidez que reflete sua essência -
sussurrada na fina atenção que dedica em silêncio a imortalidade em seu segredo (assinou aqui sua presença): liberdade.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Rastro de seus olhos

Laura estava sentada na condição que a postura do sofá fornecia-lhe. De pernas cruzadas e majestosas, os olhos que lhe observavam caíam instantaneamente por seus pés e impulsionavam a subir, chegando à cintura de curvatura bela e bem combinada aos seus seios sobressalentes à estampa da blusa branca que usava. Por debaixo desta, um sutiã vermelho aparecia pelas alças, e combinando com uma palavra estampada na blusa, ainda despertou por detalhe do gesticular a mesma coloração nas unhas - e se não por realismo, por desejo, da mesma forma seus lábios apareciam. E queimavam.
A situação ficava cada minuto mais fixada nela. Interessava o brilho de seus olhos e acessórios. Interessava ainda mais fantasiar essa majestosidade em hábitos que acolheriam bem todo seu ar concentrado nos acontecimentos, no ''por vir'', centrada permanecia, quase arrogante - não o era por completo por dirigir seu par de olhos à todo lugar, parecendo deixar tudo o que observava mais forte e claro: rastro de seus olhos.
Algum cigarro poderia consumir a sutil manobra de formar fumaça, soprar segredos visualizados com alguma mão a abanar-lhe. E assim quase cumprimentar e desvendar-lhe. Desnudar essa manobra engatilhada em cores, postura e fumaça - soubera tanto quanto fantasiava! E poderia perder instante por instante quando realizasse, e novamente ela, prosseguisse à espera.
Sentada a cama dele, marcaria o lençol com sua pele branca e as transparentes e fortes expectativas de um desviado observador.

Dado conta de sua censura, não pudera mais tê-la. Como resposta percebida à sua fronte suada, fechou os olhos, passou a língua pelos lábios, tentando recompor-se. Inclinou-se para desistir dos ruivos cabelos, caminhos de Laura. Assim tendo feito, levantado até estar de pé ganhou instantes do direcionamento dos olhos claros dela. Ofuscado por tal luz, ele escolheu a sombra d'alguma árvore lá fora para esgueirar seus desejos.
Não suportava escolhas quentes; e os graus queimavam nas órbitas e na ousadia. Suava e perdia-se, fumava para incinerar os rastros no ar.

Depois de respirar fundo, sentiu que já não mais adiantava, expirou para dentro de si o vital que lhe matava, o corrosivo para respirar. No ar estava, no peito arfava.
Sua paixão pela fantasia era inevitável. Tê-la o destruiria. Fuligem era o que ele então viraria.
Escolheu então o Sol, e a fumaça da silhueta personificada pelo ar, dissipando-se em cada gota, em cada delírio; pois eram seus olhos, seus próprios olhos que queimavam esse caminho, esse mar abrasivo...


quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Na forma do movimento

Caminhando pelo trajeto habitual de suas noites, passava pelo caminho observando à sua movimentação o brilho refletido na matéria que pisava, das pedras alinhadas debaixo de seus pés.
Amolestada por reflexões ora desordenadas, ora em firmes estacadas, contribuía para dorir o espectro ocupacional de sua noite. Ela passeava os olhos para o encontro do significado, e no momento, para o entendimento tecelão do sopro das palavras, do poderia da confecção quase personificada na haste do vocábulo.

Era de seu corpo que demonstrava a matéria de sua razão, numa moldura clara e simples é aquilo que se vê. Porém tão condicionada a olhos concretos, urbanos, intimidava-se com ombros contraídos. Para sua busca interna com pés, por entre o chão...
Explanava ainda da matéria mais delicada e frágil que parte do ponto interno de si mesma; de dentro para fora, da matéria para a palavra, do sentido pra significação.
Induzida por seus próprios vícios, no cansaço procurava virtudes, e por hora cansava-se da própria busca e afundava-se em tortuosidades da barreira de não apenas existir.
Cansa-se misturando o presente a passado, imperfeiçoando qualquer futuro, exprimindo o avesso do confuso, da linguagem, para aproximação d'outra camada.
Longe da epiderme do comunal em saudade, em vagarosidade, procurava apenas (des)conter-se nas idéias remetentes de tato, ainda como a veste dos olhos cristalizados, no palpável rosto banhado, na sentença de uma voz da bagagem de uma fotografia; na ânsia da vagarosidade, produzia saudade, com outra vocação.
Utopicamente objetava-se a encontrar nos caminhos decorados de seu lar e das cotidianidades enfileiradas, um pingo de demonstração palpitante à ilusão derrotada pela vontade de alguma simbolização nascida do espírito; da fome de quem clama por perseverança, do ócio de quem balança no pêndulo do tempo, e na divagação do incomum no metal das antenas, no risco das jóias.

E para quando seus suspiros embalsamaram suas idéias, o arranjo de sua cortina fechou a fronte da partida, com a fachada escura do quarto que a abrigava, deixando uma fina tarja sépia, dentre a escuridão da noite e seus mantos.
Ou adormecera, ou forçara com suas mãos qualquer movimento que praticasse a luz para sua ''trajetual'' significação.


Imagem por Amélia Vinhal

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Tu, Eles, Nós

Pura e fértil era a silhueta que alongava o traço do contorno que a luz pouca, comprimida,
à entrada e frestas na cortina, lhe cediam.
Na verdade era um pouco de sentimento que retrataria os sentidos sem ter a mínima razão inteligível.

Olhos fechados para a saciação na concha de mãos unidas para o beber do instante com um pouco de amor.
Este que precipitava a saliva, inspirava o suor e os líquidso ao fluxo dado de tanta emancipação.

Eram já corpos íntios à queda da noite usurpadora de sentidos, a sustentavilidade de impressões desatentas da qualificação visual;
enrustidas de plenitude sensitiva, ao quadro do espírito, a aquarela de seus significados.

Naquela monogamia de estado, diria-se deles mariposas comunetes à noite;
Íntimos da calidez da manta furtiva, e sépia da liberdade encostada discreta na dobra da parede, na veste em cortina.

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No quarto dela, sem ele.
Havia espaço demasiado, só que apertava-lhe tamanha ausência.
Configurava cubículos, ainda que desses centímetros de versos coubessem seus corpos como milímetros, só.

A paixão coubera irradiada por essa luz que esgotava-lhe.
Um conceito sabido gera grandes manuseamentos condicionados. E a geratriz do bem-querer não pode esperar por conceituação.

À margem dóutra página, fixa oalavras de vocábulos-ruídos...
Quando perdesse a poesia, haveria o canto. Sem afinação, os sussuros ou gemidos.
Ainda sem som: o espaço clama, habitação.