quarta-feira, 4 de junho de 2008

Coexistência

Deu o poder de suas mãos ao vento, que soprava-lhe baixinho aos ouvidos, desejos de insanidade - (que) consumiam-na cada vez mais. A brisa de uma madrugada fria revelava-lhe idêntica submissão das aparências a sua verdadeira natureza, os dias passando ao tempo, idêntico passamento. Os entorces de uma vida caminhavam lentos, distraindo-se nas fábulas do que não lhes era possível, sonhando no sentido de buscar e saber-voar -
decaíram-se no chão sedento de suas lágrimas, aonde brotando angústias, ela erguia-se para de igual a igual encará-los (tentanto constante), sobreviver.
Caminhando pelas horas súbitas de buscar uma nova distinção sua existência, deparou-se serena a questionar seu derradeiro permanecer, sentindo-se cada vez mais clara no confuso, matéria sublime pouco vista, talvez nada. E tomou sua pergunta por resposta, caminhando ao meio de sua entrega cheia de verdades, cheio de sua corrente intimidade.

Vestida com os trajes de plena celebração, colocando agulhas a equilibrarem seus pés, gerando de seus passos o compasso definitivo; seus rastros únicos, sua escuridão deixada para trás quando levaria o mundo todo num salto livre, no fim de todos os seus princípios.
Posta aos instantes finais de seu destino, espalhou por seu carro caixas de sapatos, seus passos extintos não lhe prenderiam mais em qualquer rastro, não felicitariam nem agoniariam.
Pôs seus pés a neutralidade do ar que buscava decisivo, recrutando-se ao novo caminho, olhando pra trás apenas num aviso com as últimas palavras do mundo que empurrou-lhe;
deixando e despedindo.
Cambaleou uma ou duas vezes, e num salto, num suspiro se entregou: as marítimas correntes enlaçaram-lhe. Suas poucas voltas à superfície demonstraram a resistência inata de estar vivo, mas a disposição de tudo, suas vontades e seus sentidos, deixaram-lhe.

Um corpo sem razão a vaguear, até encontrarem-na flutuando com o ar denso, com o corpo desgastado; mas com seu curso completo pela ânsia de um novo nascimento -
quando o nada apareceu-lhe como tudo.

sábado, 17 de maio de 2008

Liberdadéia

Vindo da rua, a poucos passos, sorrateira evazou-se atmosférica, respirando e inspirando nas peculiaridades de sua presença; o ar e a veste.
Ela escorreu pelas paredes, enquanto pintava quadros, sinfoniava sons, amaciava o solo e multifacetava-se. Por trás das cortinas, numa brecha fina eu podia observá-la, batendo de porta em porta, discretamente penetrada na lapidação das mesmas, e quando não percebida, saía ao rumo do vento, em busca de um lugar qualquer que pudesse justificá-la por si só.
E ela sempre caia nas bocas pelas praças, pelas telas, ecoada nos gritos protestantes; tão querida a tantos cantos que repelida a sua integridade, sempre parecera utopia. Uma personagem cheia de suas idas e vindas, nas fragrâncias da podridão, isolada, nas paixões tão libêrta, ela sempre vagou nômade e selvagem, seguindo seus instintos na privação e na necessidade.
Na realidade, sua coexistência sempre produziu contos urbanos, lendas que desde muito trescalaram dúvidas e produziu suspiros aos que se acomodaram nos mantos do sonhar.
Ela ensaia seus passos em princípios, repercutida nos espaços cheios ou vazios, desde que isenta de egoísmos, possa beneficiar em sua indigência os nomes que cuida; maternal à todas as escolhas.
Alimenta-se dos ares mais sublimes, como força ideal para equilibrar os seres, ela instiga e conduz as criaturas que repousam em suas lacunas, sendo a matéria da vida e da morte. E finalmente, penetrando nos poros do tempo ela embarca nas asas da palavra que não descreve a limpidez que reflete sua essência -
sussurrada na fina atenção que dedica em silêncio a imortalidade em seu segredo (assinou aqui sua presença): liberdade.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Rastro de seus olhos

Laura estava sentada na condição que a postura do sofá fornecia-lhe. De pernas cruzadas e majestosas, os olhos que lhe observavam caíam instantaneamente por seus pés e impulsionavam a subir, chegando à cintura de curvatura bela e bem combinada aos seus seios sobressalentes à estampa da blusa branca que usava. Por debaixo desta, um sutiã vermelho aparecia pelas alças, e combinando com uma palavra estampada na blusa, ainda despertou por detalhe do gesticular a mesma coloração nas unhas - e se não por realismo, por desejo, da mesma forma seus lábios apareciam. E queimavam.
A situação ficava cada minuto mais fixada nela. Interessava o brilho de seus olhos e acessórios. Interessava ainda mais fantasiar essa majestosidade em hábitos que acolheriam bem todo seu ar concentrado nos acontecimentos, no ''por vir'', centrada permanecia, quase arrogante - não o era por completo por dirigir seu par de olhos à todo lugar, parecendo deixar tudo o que observava mais forte e claro: rastro de seus olhos.
Algum cigarro poderia consumir a sutil manobra de formar fumaça, soprar segredos visualizados com alguma mão a abanar-lhe. E assim quase cumprimentar e desvendar-lhe. Desnudar essa manobra engatilhada em cores, postura e fumaça - soubera tanto quanto fantasiava! E poderia perder instante por instante quando realizasse, e novamente ela, prosseguisse à espera.
Sentada a cama dele, marcaria o lençol com sua pele branca e as transparentes e fortes expectativas de um desviado observador.

Dado conta de sua censura, não pudera mais tê-la. Como resposta percebida à sua fronte suada, fechou os olhos, passou a língua pelos lábios, tentando recompor-se. Inclinou-se para desistir dos ruivos cabelos, caminhos de Laura. Assim tendo feito, levantado até estar de pé ganhou instantes do direcionamento dos olhos claros dela. Ofuscado por tal luz, ele escolheu a sombra d'alguma árvore lá fora para esgueirar seus desejos.
Não suportava escolhas quentes; e os graus queimavam nas órbitas e na ousadia. Suava e perdia-se, fumava para incinerar os rastros no ar.

Depois de respirar fundo, sentiu que já não mais adiantava, expirou para dentro de si o vital que lhe matava, o corrosivo para respirar. No ar estava, no peito arfava.
Sua paixão pela fantasia era inevitável. Tê-la o destruiria. Fuligem era o que ele então viraria.
Escolheu então o Sol, e a fumaça da silhueta personificada pelo ar, dissipando-se em cada gota, em cada delírio; pois eram seus olhos, seus próprios olhos que queimavam esse caminho, esse mar abrasivo...


quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Na forma do movimento

Caminhando pelo trajeto habitual de suas noites, passava pelo caminho observando à sua movimentação o brilho refletido na matéria que pisava, das pedras alinhadas debaixo de seus pés.
Amolestada por reflexões ora desordenadas, ora em firmes estacadas, contribuía para dorir o espectro ocupacional de sua noite. Ela passeava os olhos para o encontro do significado, e no momento, para o entendimento tecelão do sopro das palavras, do poderia da confecção quase personificada na haste do vocábulo.

Era de seu corpo que demonstrava a matéria de sua razão, numa moldura clara e simples é aquilo que se vê. Porém tão condicionada a olhos concretos, urbanos, intimidava-se com ombros contraídos. Para sua busca interna com pés, por entre o chão...
Explanava ainda da matéria mais delicada e frágil que parte do ponto interno de si mesma; de dentro para fora, da matéria para a palavra, do sentido pra significação.
Induzida por seus próprios vícios, no cansaço procurava virtudes, e por hora cansava-se da própria busca e afundava-se em tortuosidades da barreira de não apenas existir.
Cansa-se misturando o presente a passado, imperfeiçoando qualquer futuro, exprimindo o avesso do confuso, da linguagem, para aproximação d'outra camada.
Longe da epiderme do comunal em saudade, em vagarosidade, procurava apenas (des)conter-se nas idéias remetentes de tato, ainda como a veste dos olhos cristalizados, no palpável rosto banhado, na sentença de uma voz da bagagem de uma fotografia; na ânsia da vagarosidade, produzia saudade, com outra vocação.
Utopicamente objetava-se a encontrar nos caminhos decorados de seu lar e das cotidianidades enfileiradas, um pingo de demonstração palpitante à ilusão derrotada pela vontade de alguma simbolização nascida do espírito; da fome de quem clama por perseverança, do ócio de quem balança no pêndulo do tempo, e na divagação do incomum no metal das antenas, no risco das jóias.

E para quando seus suspiros embalsamaram suas idéias, o arranjo de sua cortina fechou a fronte da partida, com a fachada escura do quarto que a abrigava, deixando uma fina tarja sépia, dentre a escuridão da noite e seus mantos.
Ou adormecera, ou forçara com suas mãos qualquer movimento que praticasse a luz para sua ''trajetual'' significação.


Imagem por Amélia Vinhal

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Tu, Eles, Nós

Pura e fértil era a silhueta que alongava o traço do contorno que a luz pouca, comprimida,
à entrada e frestas na cortina, lhe cediam.
Na verdade era um pouco de sentimento que retrataria os sentidos sem ter a mínima razão inteligível.

Olhos fechados para a saciação na concha de mãos unidas para o beber do instante com um pouco de amor.
Este que precipitava a saliva, inspirava o suor e os líquidso ao fluxo dado de tanta emancipação.

Eram já corpos íntios à queda da noite usurpadora de sentidos, a sustentavilidade de impressões desatentas da qualificação visual;
enrustidas de plenitude sensitiva, ao quadro do espírito, a aquarela de seus significados.

Naquela monogamia de estado, diria-se deles mariposas comunetes à noite;
Íntimos da calidez da manta furtiva, e sépia da liberdade encostada discreta na dobra da parede, na veste em cortina.

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No quarto dela, sem ele.
Havia espaço demasiado, só que apertava-lhe tamanha ausência.
Configurava cubículos, ainda que desses centímetros de versos coubessem seus corpos como milímetros, só.

A paixão coubera irradiada por essa luz que esgotava-lhe.
Um conceito sabido gera grandes manuseamentos condicionados. E a geratriz do bem-querer não pode esperar por conceituação.

À margem dóutra página, fixa oalavras de vocábulos-ruídos...
Quando perdesse a poesia, haveria o canto. Sem afinação, os sussuros ou gemidos.
Ainda sem som: o espaço clama, habitação.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A menina das mãos pequenas e dos grandes feitos

Vista numa abertura da janela vitral, havia ela e suas insistentes madeixas, tão sedutoras.
O vento trazia respaldos de movimentos empurrados, até a chegada naquele corpo,
no cubículo quadriculado que a abraçava;
pois tão bem aninhada nos lugares, clamava sem súplica o aninhamento de um filhote
- e dos olhos de quem a tinha sobre as vistas.

Ela, deslumbrava serena o contorno da sua existência.
Para começar consigo - aos alvos-chave de seu corpo - por suas mãos, pelo encantamento provocado pela voz, o caminho de seus olhos, o reflexo, em sua alma.Variava posição da prontidão, criando por cima dela, colorindo-se ao que apetecia a altura de suas mãos; num esmalte, no modelito.

Recortava-se na paisagem criando um álbum de fotografias para o seu corpo no tempo diversificado - praticando a conversão de sua consciência, a candura do simbolismo condicional;
que não crêra vivo se não satisfatório, sorridente por alguma expressão.

Sentia-se colaborando com a passagem dos anos, marcada nos traços de sua personificação, cuidadosamente selada pelo sussurro da experimentação existencial - delicada como o dedilhado de fundo musical, essencial ao sopro do vento como o balançar das cortinas - como incentivo por entre o frêmito de seus cabelos.

Cuidando fio-a-fio da elasticidade das condições, determinava possibilidades às figuras impessoais; tanto quanto beijar uma flor, quanto amar uma estrela, aos conselhos do que chegou com o vento.

De súbito significado, seus órgãos movimentaram a vida, desde que sustenta-se de sua docilidade tão decidida, à folha branda, da sua sensibilidade escrita.

Passara pelos ladrilhos e prometera versos que inspiravam de qualquer forma, como desenhos tatuados na parede - de fria tinha seu ânimo (por vezes); de seus desenhos, suas ânsias.

Suas mãos pequenas tateavam seus sentidos completos; de seus sorrisos à suas manias prestadas, variava fio-a-fio a textura de suas virtudes viciantes, incontidas.

De beleza, soava excentricidade; em seus atos, alguma malícia, estratificava aos olhos alheios sua vitalícia, sua curiosidade contida nas respostas esvoaçadas nas circunstâncias, e no recurso íntimo do ser em cada instante.

Sentada sobre as mãos deslumbrava as notas de seus suspiros encontrando-se por outros, tecendo-se em flor implantada pelo tempo; de todos os horizontes decididos por medo, por acompanhamento.

Um estalar de dedos, ainda de mãos pequenas, desviam e chamam a pontuação da atenção; é a vida, é uma menina; debruçada e atenta, esvoaçada na expansão dos mínimos feitos, na máxima identificação.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

1/3 da gota

Derramada sobre o fluxo da apatia pela chuva corrida, passava-lhe pela cabeça todos os acontecimentos movidos, por essa apatia.
Circulando por lembranças, fatos do hoje envocaram desespero, deixaram a apatia clara ali, exposta aos seus pés fragilizados pela proteção fina de um pedaço de pano - pelo clima clemente de aconchego. Deixou-se por si encarregada, carregada de súbito preenchimento natural, de seu pensar vazio; que pesava no que ausentava.
Cada minuto corria como as gotas exasperadas da chuva clemente, do tempo presente cheio de passado, todo corroído pelo futuro............ apático.
Estava completamente derrotada pelo que escorria em seus rosto, invadia suas mãos; o solo lá fora, a luz do céu, a cor da paisagem. Clamava melancolia quando submersa nela.
Clamava versos quando destituída de proteção. Numa grande e significativa rouquidão por disposição, encolhia-se perceptivelmente, sem vontade de esconder-se.

Seu corpo grande encolhera-se numa figura de casulo, numa expectativa densa de abrir o tempo e florescer encanto, brotar movimento para além da espera, para além da apatia, para além das palavras.

Fragilizada pela chuva, pela culpa que caira sobre si própria.
Não eram etapas do tempo que a corroía, era o súbito vazio que o novo vento abatera quando abriu a janela, e esvaziou a sala, o quarto, do aconchego de seus pés apressados para abraçar o que agora, saíra para fora e molhado, gelado, está simplesmente, apático.